5 minutos ConVida - A fuga
Sentado no sofá, Pedro vê o pó a esvoaçar nos raios de sol que entram pela janela.
Apesar do silêncio da manhã, o barulho dentro da cabeça é ensurdecedor. É um despertador que não toca mas que faz acordar cedo todas as manhãs, quando todos ainda dormem descansados.
São anos assim. Anos de consultas, que não explicam a razão da sua alma estar espartilhada.
É um pai presente fisicamente, mas que se tornou um marido fantasma e um avô que teme que a sua sombra ofusque o neto.
Decide que é o último dia. Quer deixar de ser uma carga em casa e continuar a ser o descartado do trabalho que fazia com maestria.
Abre a gaveta e deixa lá o telemóvel. Aquele pequeno retângulo de vidro e luz, que o liga a um mundo de urgências artificiais, parece-lhe agora um artefacto de uma civilização doente.
Deixa também o smartwatch.
O silêncio digital que se segue é o primeiro suspiro de liberdade em décadas. Não quer notificações, não quer GPS, não quer ser "encontrável". Quer perder-se para ver se, por milagre, se encontra.
A sua partida não é um ato sentido, um sacrifício de amor.
Olha para as fotografias na parede. A sua mulher, o seu porto seguro, que envelheceu dez anos em cinco a tentar segurar-lhe a mão enquanto cai num abismo sem fundo.
Os seus filhos, que agora lhe olham com uma mistura de amor e medo, tentam dar o maior amor do mundo. E o seu neto… Merece memórias de um avô que sorri, não de um homem que olha através dele como se fossem vidro.
Vai para a serra. Não para um acampamento de fim de semana, mas para o ventre da terra.
Leva a tenda e os apetrechos que guardou na arrecadação para este dia.
Escolhe um lugar onde os pinheiros são tão altos que o céu parece uma promessa distante. Não há Wi-Fi, não há eletricidade. Também não é preciso.
Também não há o zumbido constante das cidades que faz sentir que o seu sistema nervoso está em curto-circuito.
Vai sozinho, levando apenas o que o seu corpo consegue carregar e a vontade de voltar a encontrar-se, antes de tentar voltar ao mundo civilizado.
Imagina o primeiro impacto: o frio da manhã a morder-lhe a pele sem a proteção do aquecimento do lar.
A necessidade de encontrar lenha para enfrentar o frio, o esforço de buscar água na nascente.
É isso que procura.
Quer que a sua dor deixe de ser algo abstrato.
Quer que a sua mente se cale porque o seu corpo está demasiado ocupado a sobreviver.
Na serra, o tempo não se mede em minutos de ecrã ou em prazos de entrega.
Mede-se pela inclinação das sombras e pelo ciclo da lua.
Se conseguir sobreviver ao primeiro mês, talvez a voz da doença comece a ser abafada pelo som da chuva.
Talvez, quando estiver a olhar para as brasas de uma fogueira que acende, consiga, finalmente, distinguir o que é "eu" e o que é o "estranho" que lhe habita.
Sabe o que vão dizer que está louco, que a sua a condição lhe está a toldar o juízo.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, sente uma lucidez cortante. Estar na casa cheia de conforto e modernidade, é o que lhe está a matar lentamente. Está a morrer de excesso de tudo. Precisa do nada.
Vai caminhar até que as solas dos seus sapatos conheçam a textura de cada raiz.
Vai deitar-se no chão com folhas e ouvir o coração da terra a bater. Se morrer lá, será adubo para os pinheiros, e isso é um destino mais nobre do que definhar num quarto de hospital, rodeado de máquinas que apitam e de olhos que choram.
Mas se sobreviver... ah, se sobreviver, voltará com o olhar limpo.
Voltará sem o ruído, sem a estática, pronto para abraçar sem que o seu toque transmita angústia.
Não quer que o procurem. A serra é vasta e aprende a caminhar sem deixar rasto.
Diz que se o amam, para o deixarem enfrentar o seu deserto. Para o deixarem ser o comandante do seu próprio naufrágio.
Pede para que fiquem com a luz, com as lembranças de si antes entrar no mar revolto.
Vai aprender a conversar com a escuridão da serra até que ela se torne sua amiga.
Quer que o perdoem pela ausência, para que a presença deles deixe de ser um peso para si, e a dele para eles.
Percebe que não foi para a serra para se esconder do mundo, mas para se preparar para ele.
A solidão não o isolou; devolveu-lhe a clareza.
Agora, ao olhar para as brasas da sua fogueira, já não vê cinzas, mas a luz necessária para iluminar o caminho de volta.
O final da viagem não é a solidão eterna, mas o regresso de um homem reconstruído.
Sabe que, quando descer a encosta, traz consigo o silêncio da serra no peito e uma paz que nenhum ecrã consegue dar.
Volta para o abraço da mulher, para o orgulho dos filhos e para o riso do neto, não como uma sombra, mas como uma árvore: forte, enraizada e pronta para dar sombra a quem o ama.
A grande mensagem que a serra lhe gravou na alma é simples: nenhum nevoeiro é eterno quando se tem a coragem de caminhar até onde o sol nasce primeiro. Está vivo. E, pela primeira vez, sabe que o melhor da sua vida não ficou para trás — está à espera dele, no momento em que voltar a cruzar o seu olhar com o daqueles que nunca deixaram de o esperar.
A cura não foi esquecer quem era, foi lembrar-se de quem sempre foi.


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