5 Minutos ConVida – Calor no Natal



Naquele Natal, em casa do Tomás não há árvore, luzes, nem presentes.  O pai está doente e desempregado, a mãe tem um trabalho onde ganha um ordenado irrisório e as contas são uma preocupação.

A criança gentil sente que, mais uma vez, não há dinheiro para prendas. 


Na escola, os colegas falam de consolas, telemóveis e brinquedos novos para o Natal.  Quando perguntam ao Tomás o que receberá, responde:

— Ainda não sei. É surpresa … — diz, olhando para o chão.

Sabe que a surpresa será não receber nada. 


Por aqueles dias, a professora pede à turma para desenhar “o seu Natal”.  Muitos desenham árvores cheias de presentes. Tomás traça só uma mesa pequena com três pratos, três pessoas de mãos dadas, um bolo e, num canto, um carrinho vermelho minúsculo. 


A Inês, sentada ao seu lado, repara.

— Só vais ter um presente? — pergunta.

— Não sei… Se tiver um carrinho assim, é muito bom. — disse Tomás, sem olhar para ela, acrescentando — Este ano nem a árvore de Natal fizemos ...


A frase fica na cabeça sensível de Inês o resto do dia. 

Em casa, enquanto ajuda nos últimos preparativos de decoração para o Natal, conta à mãe, e o pai ouve a conversa.

— Na minha turma tenho um colega que, este ano, não tem árvore nem presentes. É triste. Podíamos ajudar…


Os pais ouvem com atenção e concordam. 

Juntam comida e outras coisas em casa para fazer um cabaz — massa, arroz, enlatados, bolachas, rabanadas, perú recheado, um bolo, chocolates, um licor e uma pequena árvore de Natal, com gambiarra e ornamentos. E o pai compra um carro vermelho, como o do desenho. 


Na véspera de Natal, batem à porta de Tomás.  A mãe abre, surpreendida ao ver a família da Inês com sacos nas mãos e umas caixas

— Este ano quisemos partilhar um pouco do que temos. — explicou a mãe da Inês. — É só um pequeno gesto de Natal. 

A mãe de Tomás fica corada, envergonhada e emociona-se. 

— Não é preciso se incomodarem… Nós remediamo-nos —  complementando, com orgulho ferido.

A mãe de Inês insiste e diz que estão a partilhar também com outras famílias.

— Nem imaginam o quanto isto nos faz falta. — desabafa, baixando as barreiras.


Tomás ouve a conversa e aparece à porta. Inês entrega-lhe o saco mais pequeno.

— Este é para ti.

Dentro está o carrinho vermelho. 

— É mesmo para mim? — pergunta, sem acreditar.

— Sim. O teu desenho merece sair do papel. — responde Inês. 


Naquela noite, a mesa ficou mais cheia e o coração de Tomás também.  A árvore ilumina o Natal, a comida conforta, o brinquedo alegra e, sobretudo, o agradecimento à bondade de uma família que se importa com ele. 


No regresso às aulas, em janeiro, o frio ainda corta, mas o recreio parece menos pesado para Tomás. A pobreza continua, mas já não é uma vergonha silenciosa: alguém entrou no silêncio com mãos cheias e calorosas.  


Inês senta-se ao lado dele.  

— Então, como estás? — pergunta.  

Tomás sorri com alegria tranquila.  

— Foram umas férias felizes, graças a ti e à tua família. Mais uma vez, obrigado. Além disso, uns dias depois do Natal o meu pai melhorou e foi chamado para trabalhar num hotel. Acho que, devagar, tudo vai melhorar — responde, com um sorriso.


Inês baixa os olhos, meio envergonhada.  

— Só partilhamos um pouco do que temos…  

Tomás abana a cabeça.  

— Para ti foi “um pouco”. Para mim foi tudo.  


Ficam em silêncio por instantes, a ver outras crianças correrem. 

O carro vermelho enche a mochila quase vazia. Nunca mais o largou.  


Tomás olha para ele e diz:  

— Sabes, antes pensava que Natal era o que se comprava. Agora sei que o Natal é quando alguém sente problemas nos outros … e decide não virar a cara.  

Inês sorri.  

— Então valeu mesmo a pena.  

Tomás abana a cabeça com grande concordância.


Naquele recreio simples, sem luzes nem canções, o verdadeiro brilho do Natal está ali: numa criança não é esquecida e noutra que escolhe não ser indiferente. 

Na verdade, um gesto de solidariedade não muda o mundo inteiro, mas transforma sempre o mundo de alguém.

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