5 Minutos ConVida – O Vício do Scroll


O telemóvel vibra pela terceira vez em menos de cinco minutos. Sofia, de 16 anos, pega nele quase sem pensar. Uma nova notificação, mais um vídeo curto, uma atualização rápida. O tempo passa, mas não dá conta.
Sentada no sofá, com os olhos fixos no ecrã, passam vídeos, memes, histórias de amigos, piadas, polémicas, conselhos, músicas, tudo misturado, rápido, fácil. Cada vez que tenta fechar a app, aparece algo novo, irresistível, e volta a deslizar o dedo para cima, buscando mais.
— Sofia, já vais dormir? — pergunta a mãe, da cozinha.
— Sim, já vou! — respondeu, sem levantar os olhos.
Mais uma hora passa. O quarto escurece, a casa fica silenciosa, mas o telemóvel continua a brilhar.

No dia seguinte, sente-se cansada, distraída, com dificuldade de concentrar-se na aula. Tenta lembrar-se do que tinha lido no livro, mas a cabeça está cheia de vídeos, sons e rostos desconhecidos.

Na hora do almoço, conversa com a amiga Rita.
— Passas tanto tempo no telemóvel que nem percebes como isso te rouba o tempo, o sono, a atenção. Também já passei por isso e concordei com o meu pai quando me alertou que estava a ser levada pelo algoritmo, que me prendia com tudo aquilo que sabia ser do meu interesse.
— Sei que passo, mas é difícil parar. É como se não fosse eu a escolher, mas o telemóvel a me prender, talvez seja o que dizes o algoritmo que me vicia ao ecrã.
Rita sorri, compreensiva.
— Já me aconteceu. Antes, sentia como se tivesse perdido horas só a “scrollar”, sem fazer nada de útil ou que me preenchesse.

Sofia suspira.
— Às vezes sinto que estou a perder o tempo, mas não consigo parar.
— Tenta perceber por que é que te prende tanto. — disse Rita. — Podes questionar se é só entretenimento? Se é para fugir do tédio? Ou se é para não pensar em algo? Mas, a verdade é que vais bater sempre ao mesmo, o algoritmo que criam para nos prenderem nos telemóveis.

Sofia pensa. Percebe que, muitas vezes, “scrollar” é uma forma de fugir do silêncio, da solidão, da pressão do dia. Mas admite que a tecnologia esteja feita para nos prender aos seus interesses.
— Tens de estar consciente da prisão que te coloquem neste mundo livre. Por isso, se queres um conselho desta amiga, tenta dar um tempo ao telemóvel. — sugere Rita. — Coloca um limite, escolhe momentos para parar, vai caminhar, lê um livro, conversa com alguém, faz algo que te preencha de verdade. Corta, mesmo que te sintas tentada.

Sofia experimenta.
No início, é difícil. Sente-se estranha sem o telemóvel sempre à mão. Mas, aos poucos, começa a perceber o valor do tempo sem o scroll constante. Descobre que pode ler, conversar, desenhar, ou simplesmente ficar em silêncio, sem sentir que está a perder alguma coisa.

Aprende que o scroll não é mau por si, mas viciado, rouba o que é mais precioso: o tempo, a atenção, o momento presente.
E, quando sente vontade de voltar ao ecrã, lembrava-se do que mais gosta de fazer fora dele.
Porque, às vezes, o maior desafio não é parar de “scrollar”, mas lembrar-se de que há muito mais para viver do que o próximo vídeo; de ser livre das nossas ações e não ser agarrado pelo algoritmo silencioso que está sempre com iscas prontas para nos manter presos ao anzol.

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